Li e não concordo

De duas semanas para cá, o feed de notícias de nossas redes sociais lembrou muito aqueles bailes elegantes para a terceira idade. Chamado de FaceApp, o aplicativo não inova, mas surpreende naquilo que se propõe: transforma a foto de qualquer usuário em uma versão dele mais velha, mesmo que não seja a sua.

Não inova, pois há outros aplicativos que fazem o mesmo. Inclusive, há dois meses, aproximadamente, o quase finado Snapchat ressuscitou com um filtro específico que transformava todos em bebês ou do sexo oposto. Surpreende, no entanto, pelo alto grau de caracterização. Temos que dar o braço a torcer que a projeção que o aplicativo faz sobre como seremos daqui a 40 ou 50 anos é impressionante. Por meio da inteligência artificial, o app pode além de nos deixar mais velhos, nos trocar de sexo, colocar barba entre outras funcionalidades.

Atualmente, o FaceApp é o aplicativo mais baixado no mundo, com mais de 50 milhões de downloads, se somarmos tanto na Apple Store quanto Google Play. Espanta também o número de avaliações do app, cuja marca chega a 1,5 milhão de reviews.

Divertido é. Mas o que podemos ver por detrás desse frisson é uma captura desenfreada de nossos dados mais íntimos e privados, sendo tudo isso autorizado por nós. A empresa russa Wireless Lab, criadora do app, obtém informações sobre os usuários e constrói uma gigantesca base de dados que vai desde uma simples geolocalização, passando pelo e-mail e informações do telefone, a preferências de consumo.

Dias atrás, conversava com uma amiga e supervisora aqui da Binder, Glaucia, sobre como cedemos nossos dados, e ela me recomendou o excelente documentário “Sujeito a Termos e Condições”. O cerne de todo o debate está na cessão consciente de dados, mas na qual nós mal sabemos o que estamos aceitando. Universidades americanas já testaram esse comportamento.

Pesquisadores de Berkley e Dresden realizaram uma pesquisa com mais de 80 mil usuários. Em um serviço de proxy anônimo, os pesquisadores inseriram um aviso de mais ou menos 200 palavras, em inglês e alemão, convidando o usuário para participar de uma pesquisa sobre anonimato na internet. O texto era curto e dispensava até mesmo barra de rolagens. Mais de 50% dos 81.920 usuários fecharam a janela em menos de oito segundos, o que demonstra claramente que eles não leram o texto todo. Além disso, os responsáveis pela pesquisa perceberam que o texto exibido nos botões da janela é que define a atenção que o usuário dispensa a ela.

Os termos de condições de aplicativos e softwares são contratos no qual se pode pedir praticamente de tudo

Em 2005, Doug Heckman resolveu ler o contrato de um serviço adquirido pela empresa software PC Pitstop e encontrou uma nota curiosa no meio de suas cláusulas. A nota afirmava que um número limitado de pessoas que lessem o documento e entrassem em contato com a PC Pitstop  receberia  um prêmio.  Doug assim fez e recebeu 1.000 dólares. O incrível é que foram necessários três mil cadastros feitos e cinco meses até que alguém percebesse a brincadeira. Outro caso inusitado foi o da loja de jogos GameStation, que em 2010 também fez uma experiência similar e inseriu uma cláusula que fazia o usuário ceder os direitos da própria alma à empresa.  Impressionantemente, sete mil pessoas entregaram suas almas à GameStation.

termo de uso licença de uso

Software ofereceu US$1.000 para aqueles que lessem até o final sua licença de uso.

Dessa forma, os termos de condições de aplicativos e softwares são contratos no qual se pode pedir praticamente de tudo, como vimos. Na política de privacidade, os criadores do FaceApp especificam que os usuários, ao fazerem download da app, “concordam em fornecer diretamente fotografias e outros materiais que publicam por meio da aplicação”, inclusive histórico de navegação. De acordo com eles, os dados são usados para “ferramentas de análise de terceiros para ajudar a medir o tráfego e as tendências de uso do serviço. Estas ferramentas reúnem informação enviada pelo seu dispositivo ou pelo nosso serviço, incluindo as páginas web que visita, add-ons, e outra informação que nos ajude a melhorar o serviço”. O termo (disponível aqui, em inglês)  ainda completa: “quando você usa nosso serviço, nossos servidores registram automaticamente determinadas informações do arquivo de registro, incluindo sua solicitação da web, endereço IP, tipo de navegador, páginas de referência / saída e URLs”.

Os desenvolvedores ainda rechaçam que poderão ser usados cookies e “tecnologias semelhantes” para recolher informação sobre os usuários e, assim, gerar uma publicidade mais assertiva. Segundo o termo, o FaceApp pode compartilhar suas informações, bem como informações de ferramentas como cookies, arquivos de log e identificadores de dispositivos e dados de localização, com organizações terceirizadas. Assim, os prestadores de serviço da aplicação têm acesso às suas informações “conforme seja necessário para fornecer o serviço sob termos de confidencialidade razoáveis”, completa. A política de privacidade não informa como esses dados são transferidos a terceiros, qual momento da transferência ou que eles entendem por conexão entre o usuário e o app.

Segundo o FaceApp, as informações dos usuários são armazenadas em servidores nos EUA, onde não há uma regulamentação voltada para a proteção de dados, como tem no Brasil (Lei Geral de Proteção de Dados – LGPD). Ao menos nesse momento inicial, essa lei pode vir a garantir uma segurança

O que precisa ser construído de forma muita atenta diante disso tudo é um processo em que esses desenvolvedores de aplicativos e parceiros de negócios, com agências de propaganda, começarem a implantar uma política clara de compliance nesta seara. Como as informações sobre o público são levantadas? Como serão as relações com ferramentas de social listening, Big Data, etc? Acabamos de sair de um contexto global no qual vimos a Cambridge Analytica manipular dados de redes sociais no contexto das eleições estadunidenses. Os dados pertencem às pessoas. Em uma visão sumarista, as empresas pegam “emprestado” esses dados.

É preciso entender que esse cenário veio para ficar. Antes da LGPD, existiam cerca de 140 normas, portarias, despachos entre outros instrumentos jurídicos que regulamentavam a coleta de dados e informações de usuários. Agora, isso tudo está unificado na lei.

A criação dessa lei não veio para burocratizar, mas para auxiliar a construção de um setor mais transparente

Essa lei vai forçar as empresas a ser mais eficazes na estratégia digital, acarretando em um impacto positivo entre uma marca ou serviço e seus clientes. Teremos consumidores que escolheram de fato receber aquele tipo de informação Com mais clareza nessa coleta de dados, a experiência entre o cliente e seus usuários tende a ser mais verdadeira e forte. Assim, conseguiremos gerar um conteúdo mais relevante para esse público. De certo modo, a criação dessa lei não veio para burocratizar, mas para auxiliar a construção de um setor mais transparente, no qual, a médio prazo, produzirão campanhas mais acertivas com seu público. Quem ficar de fora dessa discussão, corre o sério risco de perder novos negócios.

A corrida pelos dados dos usuários já começou há tempos. Não é ruim esse cenário. Pelo contrário, quando usamos essas informações para anteceder uma demanda necessária ou para facilitar tarefas recorrentes, como, por exemplo, um Smart Speaker sempre sintonizar no programa de rádio que costumo ouvir. É preciso ter em mente que o usuário precisa ter a chave da sua privacidade e, sobretudo, possuir a autonomia de quando quer abrir ou fechá-la.