Christina Santos começou a carreira como estagiária na Lintas. Como tráfego, passou pela Salles/Interamericana e Merchand (braço promocional da agência). Na McCann, migrou para o atendimento e geriu grandes contas, como Coca-Cola e Gillette. Na Promarket, atendeu clientes do setor de saúde, como Amil e Laboratórios Sérgio Franco. Na Agência 3, trabalhou com Petrobras, CCAA e Governo do Estado do Rio, ingressando no universo das licitações públicas. Este ano completa 15 anos de Binder e lidera contas como Governo do Estado do Rio, Prefeitura do Rio, Vivo, Sesc e Senac. Além disso, com expertise em gestão e estratégia, coordena os complexos processos de licitação. Entre outros temas, nesta conversa falamos sobre suas escolhas profissionais, os muitos desafios do dia a dia, a vida na região serrana do Rio e a busca por uma vida mais equilibrada.

Publicidade: meta ou acaso?
Chris – Eu diria que muita sorte… rsrsrs. Odiava qualquer coisa relacionada às áreas de exatas e biomédica. Meu sonho era ser arqueóloga, mas tinha consciência de que não teria muito campo de trabalho. Optei por Publicidade na fila para a inscrição do vestibular. Deu certo, não me imagino fazendo outra coisa.
Na Binder, você liderou contas de grande impacto, como Vivo, Governo do Estado do Rio, Sesc e Senac. Qual projeto ou cliente mais marcou sua trajetória na agência e por quê?
Chris – A campanha de 70 anos do Sesc foi bem marcante. Foi um longo processo de planejamento liderado pela Binder e que envolveu todas as regionais do Sesc, culminando numa ação diferenciada, totalmente digital – fato inédito para o cliente que, na época, ainda não navegava muito por essa área. A campanha contou com três lindos e emocionantes filmes, superproduções mesmo, e convidava o público e colaboradores a participar e contar suas histórias com o Sesc por meio de pequenos textos e fotos. Esse material passou por curadoria e foi apresentado no livro “O Sesc que eu vejo”. Foi uma campanha que deu muito trabalho e muito prazer ao mesmo tempo. E obteve resultados maravilhosos, inclusive, com o alinhamento da linguagem de comunicação do Sesc em todas as regionais.
(confira a campanha aqui)
Trabalhar com contas públicas requer um conjunto de habilidades muito específicas?
Chris – Sim, acho que sim. Principalmente devido às particularidades dos contratos públicos, como a necessidade de seguir normas legais e lidar com transparência. Estar atento às normas legais minimiza retrabalho e evita sérios problemas para a agência e o cliente. É importante ter capacidade e muito bom senso para entender e traduzir as demandas, entregando um trabalho criativo sem nunca perder de vista que os projetos e as políticas públicas precisam ser apresentados de forma clara e didática, numa linguagem acessível a toda a população. Ser resiliente em alto grau, com capacidade de lidar com situações de alta pressão e mudanças bruscas de rota. Um temporal inesperado que cai sobre a cidade pode adiar todo um projeto ou tirar uma campanha do ar às pressas. O famoso plano B faz parte do dia a dia. A habilidade de planejar e monitorar entregas para atender a prazos rigorosos e o gerenciamento de crises de forma rápida são pontos bem sensíveis.
Quais os principais desafios que você enfrenta na missão de gerenciar licitações?
Chris – Os processos são longos, a complexidade burocrática é imensa. O risco de impugnações e recursos de outras concorrentes muitas vezes prolonga a decisão final, fazendo com que os processos sejam intermináveis. Apesar de os editais serem pautados nos modelos e nas recomendações da Secom/PR, não há um edital igual ao outro. O grande desafio é não cair nas armadilhas da subjetividade e ter a capacidade de ler “entre vírgulas”. Fico maluca quando alguém da equipe me diz “mas na outra concorrência foi assim…” Um quesito que tem sido bem desafiador é a adaptação dos editais às novas tendências de mídia e comunicação digital, pois as exigências ainda são muito confusas e polêmicas. Enfim, cada edital é um, e cada licitação sempre deixa mais um ponto de atenção para ser anotado no “caderninho”. Por aqui, conquistamos um ótimo índice de aproveitamento, pois temos passado muito bem pelo risco de desclassificação por falhas em requisitos formais ou técnicos.
Ao longo da sua trajetória, você trabalhou tanto com clientes privados quanto com instituições públicas. Na sua visão, quais são as maiores diferenças em termos de expectativa e dinâmica de trabalho?
Chris – Enquanto os clientes privados buscam aumentar as vendas e consolidar a marca, para as instituições públicas, na grande maioria, o objetivo é informar, educar e prestar contas à sociedade. O cliente privado espera, logo de saída, mais criatividade e abordagens inovadoras. Para as instituições públicas, a demanda da criatividade existe também, mas é preciso respeitar as diretrizes legais e ser didática, o que é sempre um ponto a mais de atenção. No que se refere aos resultados de campanha (KPIs e métricas), também há diferenças. Isso exige adaptação na linguagem, no planejamento e na gestão das campanhas.
Como diretora de contas, como você equilibra as demandas criativas da agência com as expectativas e metas estratégicas dos clientes?
Chris – É necessário um processo estruturado que combine criatividade, planejamento e alinhamento estratégico. É importante conhecer profundamente o cliente e trazê-lo “para dentro” do projeto, construir a quatro mãos, dividir e alinhar cada etapa. Fazer o cliente se sentir parte do job permite que a agência tenha mais liberdade para inovar.
A publicidade passou por muitas mudanças, especialmente com a digitalização. Como essas transformações impactam o papel do Atendimento e como você tem se adaptado?
Chris – Foi-se o tempo em que uma campanha que contemplava TV, rádio e jornal era “completa”. Hoje o consumidor está presente em múltiplos canais ao mesmo tempo, e o Atendimento precisa estar atento para garantir uma experiência integrada gerenciando ações que envolvam todas as plataformas. Para acompanhar essa transformação digital, é necessário desenvolver novas habilidades e adaptar-se rapidamente às inovações. A atualização é constante e não tem fim – cursos, palestras, publicações sobre tendências. Manter a cabeça aberta e, no dia a dia, poder contar com a equipe técnica, que sabe das coisas, é essencial. Sem vergonha de fazer perguntas idiotas…
Como é conciliar a rotina profissional intensa com a tranquilidade da vida na serra? Você acredita que essa escolha impacta a forma de liderar e se relacionar no trabalho?
Chris – No início, foi bem complicado, sofrido. A loucura do dia a dia invadiu demais meu pedacinho do paraíso. Mas, com o tempo, fui criando rotinas e aprendi, principalmente, a negociar prazos comigo mesma e criar pausas estratégicas. Se estou estressada demais, nada como parar 15 minutinhos e regar as plantas do jardim. Um bando de tucanos pousou no pé de caqui? Parando agora para curtir isso! Estar em um ambiente verde, com menos estímulos urbanos, traz mais clareza mental e ameniza a cultura da urgência, trazendo uma postura mais paciente e a valorização do tempo. Isso impacta nas relações, com certeza.
Se você pudesse dar um conselho para profissionais da área que buscam um estilo de vida mais equilibrado, qual seria?
Chris – Para começar, adotar o trabalho remoto de forma mais consciente – estabelecer horários; aprender a dizer não. Valorizar o tempo e ter tempo para fazer o que dá prazer e motiva.
O que você tem lido, assistido, ouvido?
Chris – Tenho revisitado Chico e Caetano, poesia pura, eternos. Lendo agora “Um Defeito de Cor”, um livro forte que provoca a empatia. Adoro rever os episódios do “Avisa lá que eu vou”. Um banho de Brasil e com um texto sempre brilhante de Paulo Vieira.
